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'Comparações com governo FHC precisam ser mais honestas'

09 OUT 2014
09 de Outubro de 2014

Mal começou a segunda fase da corrida presidencial e a artilharia petista já se empenha em desconstruir os feitos do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) para atacar a campanha de Aécio Neves. A retórica dos "fantasmas do passado" tem sido usada para assustar eleitores. Dilma Rousseff cita os juros altos da época e a taxa de desemprego como tática de guerra, sem explicar que tais medidas foram necessárias para que o país recuperasse a estabilidade. Nesta quarta, em Teresina, a candidata chegou a dizer à população da capital piauiense que o PSDB "despreza o Nordeste". Segundo Armínio Fraga, que pilota a equipe econômica da campanha de Aécio e será o ministro da Fazenda caso o tucano vença, as comparações precisam ser contextualizadas. "É natural que, passados 12 anos, muita coisa tenha melhorado no Brasil, como resultado do controle da inflação e da estabilidade. É preciso ser cuidadoso na hora de comparar", afirmou o economista em entrevista ao site de VEJA. Segundo Fraga, que foi presidente do Banco Central de 1999 a 2002, a alta dos juros era a única forma de permitir o controle da inflação após a flutuação cambial colocada em prática em 1999. Após os ajustes, a economia retomou a trajetória de crescimento. "Apresentadas fora de contexto, as informações não fazem jus ao desafio que se enfrentou anos atrás. Fernando Henrique assumiu o país com hiperinflação, moratória, onde um telefone custava o equivalente a 30 mil reais. E entregou a Lula um país com inflação controlada, um país estável", diz. Leia trechos da entrevista. 

O debate econômico é de extrema importância nestas eleições. Mas, de certa forma, o eleitor médio nem sempre entende as informações que são apresentadas. Como o PSDB tem feito para se comunicar com esse eleitor sobre os problemas econômicos que o Brasil enfrenta?
O brasileiro está percebendo aos poucos o que está acontecendo. É da natureza do modelo populista que as interferências na economia demorem um tempo até serem percebidas. E as pessoas já estão sentindo a inflação pesar no bolso, as coisas estão mais caras, o orçamento está mais apertado e, para muita gente, pagar o crediário tem sido um desafio. Na outra ponta, o emprego já não é mais o mesmo, a indústria está cortando vagas e a população está vendo isso. Há uma percepção clara de que as coisas não estão bem.

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Uma das principais reclamações dos empresários em relação ao governo Dilma é a mudança de regras. Se Aécio Neves ganhar, abandonar de imediato as políticas de intervencionismo significa mudar novamente as regras. Como conduzir isso sem maiores estragos?
A base de tudo é a clareza e a transparência, algo que não vemos hoje. O problema não são as regras, mas a forma como são impostas. O que atrapalha é quando a mudança é arbitrária, aleatória, feita de acordo com o ponto de vista de um indivíduo ou de um setor. Em infraestrutura, por exemplo, os investimentos estão travados. Dar clareza para esse investidor em relação às condições de investimento e sobre como o governo vai cumprir sua parte é primordial. A infraestrutura depende, em muitos aspectos, do governo. Não se pode ignorar isso. Para que o dinheiro volte a entrar no setor, é preciso mudar todo o regime, não apenas regras. É preciso que o investidor confie novamente.

O setor elétrico foi alvo de muitas mudanças regulatórias que impactaram a saúde das empresas, em especial as distribuidoras de energia. Agora, o contribuinte paga a conta. Num possível governo de Aécio Neves, como recuperar o equilíbrio?
O setor elétrico será prioridade no primeiro ano e requer urgência. O investimento em energia está atrasado e defasado. Não adianta dizer que o problema é apenas falta de chuva, se o investimento que precisava ser feito não aconteceu. O Brasil foi pego desguarnecido pela estiagem. E esse é um problema criado pelo governo. O que “aliviou” um pouco a pressão sobre o setor foi o baixo crescimento. Uma constatação triste, dado o potencial do país.

O senhor tem prometido conduzir a recomposição da meta fiscal e a queda da inflação ainda em 2015, em caso de vitória. É possível cumprir um prazo tão curto?
Não só é possível, como faremos isso. Muita coisa tem de ser corrigida e eu penso que uma resposta a esse quadro de inflação alta e crescimento baixíssimo exige mais do que um acerto macroeconômico. Também será preciso conduzir a agenda estrutural microeconômica o mais rápido possível. E é possível porque não pretendo fazer tudo sozinho. Há pessoas engajadas cuidando de diversas áreas. Se não for assim, não se conduz a economia de um país.

A reforma tributária com criação do imposto único (o IVA) também em 2015 seria uma hipótese viável?
A reforma tributária vai ter como foco com os impostos indiretos, como ICMS, IPI e PIS-Cofins, e será apresentada logo no início. Estamos trabalhando precisamente nisso. Ela tem algumas etapas que podem ser postas em prática antes de outras. É difícil estimar um prazo exato para se chegar ao fim da linha com o IVA. Mas isso deve ser concluído num prazo de um a dois anos. Talvez mais para dois.

Colocar em prática essa reforma logo no primeiro ano de governo, ao mesmo tempo em que se pretende recompor a política fiscal, não é missão impossível? Afinal, a reforma pode impactar a arrecadação.
Não acho, porque nós não esperamos impacto negativo. Esperamos um impacto inicial neutro, mas que a arrecadação rapidamente se recupere e melhore com a queda na incerteza dos empresários em relação à economia. Em especial, os empresários brasileiros.

O PT já sinalizou que vai usar o desempenho da economia durante o governo FHC para atingir Aécio. Trata-se de um período de taxa de juros e de desemprego mais altas. Qual será a contra-artilharia?
Primeiramente, é preciso olhar as coisas em seu devido contexto.  É muito natural que, passados 12 anos, muita coisa tenha melhorado no Brasil, como resultado do controle da inflação. É preciso ser cuidadoso na hora de comparar isso. O caso dos juros é um ótimo exemplo. No início de 1999, a taxa de câmbio flutuou aqui no Brasil e criou-se um grande receio de que a inflação voltaria. E fez parte do processo de estabilização lidar com a flutuação do câmbio. Sabia-se, no início, que o trabalho de estabilização não terminaria da noite para o dia. Sabia-se naquele momento que a expectativa de inflação estava desgovernada, entre 20% e 50% ao ano. Havia uma expectativa de que o PIB cairia 4%. Nós tomamos as providências que hoje são bem conhecidas e, no fim, houve crescimento positivo no PIB naquele ano. A inflação encerrou em 9%, bem abaixo das expectativas. Preservaram-se os ganhos do Plano Real e se evitou a indexação. Apresentadas fora de contexto, as informações não fazem jus ao desafio que se enfrentou anos atrás. Fernando Henrique assumiu o país com hiperinflação, moratória, onde um telefone custava o equivalente a 30 mil reais. E entregou a Lula um país com inflação controlada, um país estável. Eu acho sempre bom trazer o exemplo daquela época de maneira honesta. Isso enriquece o debate. Mas, mais importante que isso é se perguntar onde o país está, quais são as perspectivas e o que será feito no ano que vem pra melhorar um quadro econômico que já é bastante desolador. O investimento está travado, a inflação está alta, apesar de todos os controles. Há um quadro fiscal extremamente preocupante, um potencial de crescimento em tendência de queda, recessão técnica. Ou seja, a economia precisa ser debatida e entendida.

Em campanha, o governo insiste que a culpa é da crise internacional.
Fica difícil provar isso quando se analisa as perspectivas mais recentes. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o crescimento global este ano será de 3%, e o do Brasil, quase zero. Na América Latina, durante os últimos quatro anos, o crescimento está dois pontos porcentuais acima do Brasil. E olha que na região há Venezuela e Argentina, o que não é exatamente um parâmetro muito exigente. E o Brasil está parado.

O senhor está preparado para ser alvo da campanha adversária?
Eu acho que é do jogo, desde que as declarações sejam verdadeiras. O que tem acontecido comigo é que eles têm citado declarações que eu não fiz. Aí já acho uma coisa mais complicada. E a outra coisa que precisa ser esclarecida é o contexto das comparações. É obrigação de qualquer governo deixar as coisas melhores do que ele encontrou. Então, a comparação com 12 anos atrás precisa ser feita com certo cuidado. Mas já se espera que a discussão descambe para o lado contrário ao debate. A esperança é que, no fim, como dizem os antigos, a mentira tem perna curta.

Num período de ajuste fiscal, é possível manter e ampliar a inclusão social?
É essencial que se mantenha a responsabilidade fiscal e que o país cresça para que se possa ampliar as políticas de inclusão. Essa é a base do problema hoje. As políticas sociais nas mãos de um governo que faz a economia crescer serão melhores e mais amplas. Para se ter uma ideia, o crescimento dos gastos sociais nos governos Itamar Franco, FHC e Lula foi de cerca de 1,5 ponto porcentual do PIB em cada um. No governo Dilma, foi de 1 ponto porcentual. É um exemplo claro de como o baixo crescimento impacta as políticas de inclusão.

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